sexta-feira, 25 de março de 2022

Estudo nº1: O Fantasma da Ópera.

  


Esse filme teve sua estreia em 2004, dirigido por Joel Schumacher, com roteiro de Andrew Lloyd Webber baseado em seu musical The Phantom of the Opera, por sua vez, uma adaptação do romance de Le Fantôme de L'opéra (1909 -1910), de Gaston Leroux.

Será que os 143 minutos de filme tratam apenas de uma personagem que está em conflito sobre amor e sua carreira ou existe uma profundidade que nossa mente racional não nos permite enxergar? 

Christine é a heroína dessa história e ela representa o nosso lado mais humano, aquele que se aterroriza ao percorrer o caminho do desconhecido, na busca por sua essência.


Aqui não há julgamentos dos motivos que levaram Christine a fazer suas escolhas, pois todos nós somos Christine nesse filme em algum momento de nossas vidas.

Nos Mitos gregos e nos mitos da humanidade não existem vários personagens, existe apenas um e todos os secundários são fatores psicológicos, morais e espirituais desse personagem. Todos projetados do “lado de fora”, porque não conseguimos vê-los do “lado de dentro”.  Então um é o medo do protagonista, outro a ousadia, outros seus corpos espirituais etc. 

Nesse filme, a personagem principal é Christine Daaé.

A origem do nome Christine Daaé vem de "cristã", é uma personagem que está crucificada entre 2 mundos e nenhum deles esta disposto a abrir mão dela.

Ela vinha sendo educada musicalmente nos bastidores por uma voz que ela não sabia de onde vinha, ela achava que era o Anjo da Música, porque seu pai, um grande violinista, no leito de morte, disse p/ ela que um dia um anjo viria e a protegeria, assim ela identifica essa voz como a voz do anjo que o pai falou.

Nessa cena abaixo, tem ao fundo um vitral com um anjo colocando uma cruz contra o peito, bem na hora em que ela se ajoelha para acender a vela para seu pai. Simbolizando esse conflito interno.

Esse anjo da música vive no subterrâneo do Teatro, é o Érik, e ele tenta puxa-la para seu mundo, dimensão vertical ↑, profunda, mas ao mesmo tempo Raul, seu amigo de infância, começa a puxa-la para seu mundo, para dimensão horizontal ↔ da fama, do reconhecimento, da vida banal, de uma sociedade superficial.


Até determinado momento ela considera que esse anjo é benéfico, mas quando ele começa a querer roubar tudo que lhe é seguro, superficial, vulgar e sem valor, ela começa a reagir negativamente contra seu mestre e ele toma a forma de um monstro deformado, do Fantasma da Ópera.

Christine é essa personalidade que todos nós somos e também temos um subterrâneo onde vive o nosso Éric, o nosso Fantasma da Ópera!   

Erik – Significa “grandioso, glorioso, rei, o que reina como a águia”.


Gênio negado pelos homens e escondido em um porão sombrio (inconsciente). Pronto a matar comodidades e superficialidades do palco da vida para liberar a alma e levá-la ao mistério.


No filme, Erik mata 2 personagens secundários, o “operador das cordas da cortina” e o “ator principal da Ópera”, mas ele não está matando dois seres humanos, não se pode analisar com a mente racional, mas sim, com a mente simbólica. 

Essas 2 mortes representam a tentativa dele limpar da personalidade de Christine as manipulações que a controlavam e sua vaidade, respectivamente.


Em algum momento da vida nossa personalidade viciada em querer aparecer a qualquer preço, em querer as coisas para si, se depara de repente com essa essência querendo roubar dessa personalidade tudo que nos diverte, que dá sentido a vida.


Isso é o que Christine sente quando vê o Fantasma da Ópera, ele aparece desfigurado, como um monstro, mas essa não é sua verdadeira face, a verdadeira face é aquela que traz a tona a beleza e harmonia. Ela é a cantora mais brilhante do teatro porque ele a ensinou sentir a música com a alma. 

O Fantasma representa um rosto que Christine não estava preparada para ver, significa a morte de tudo aquilo que temos como prazeroso e cômodo na vida, então esse Érik vive nas sombras, com o rosto deformado. 

Dentro de nós existe essa essência pura,  totalmente íntegra, altruísta e negada.
Visconde “Raoul” de Chagny: Significa "lobo conselheiro" aquele que luta com prudência.


Ele é o patrocinador do espetáculo que se passa no palco, aquele que prende Christine ao passado (olhar para trás).

Ele tem um belo rosto e conheceu Christine quando o pai dela ainda era vivo e os 2 crianças, então ele a puxa para o passado a todo momento. Ele a desvia de seu propósito de vida, por causa das memórias em comum, ele é o único que tem poder de prende-la ao mundo banal, comodismo, aceitação social, ele representa esse território seguro.




SIMBOLISMOS GERAIS:


O Teatro = Antigo símbolo relacionado à existência.

O Palco = A vida se desenrolando. É a tela onde passam as sombras, mas por trás, tem a luz que dá origem a tudo que está invisível, é nesse canto iluminado que reside a verdadeira realidade.

Os Atores = Cada um de nós usamos máscaras e figurinos para representar um papel, mas desconhecemos nossa própria natureza, quem dirige o espetáculo é quem está por trás da máscara (persona). Se não está consciente, é só uma sombra.

 MÚSICAS DO FILME:

O que os personagens falam através de suas letras?

Vamos analisar 3 músicas do filme na sequência:

All I Ask Of You" - Isso é tudo o que te peço;

"The Music of the Night" - A Música da Noite;

The Point of no Return" - Ponto Sem Retorno”

 

ALL I ASK OF YOU - ISSO É TUDO O QUE EU TE PEÇO.


Trechos da Letra com Comentários da Prof. Lúcia Helena Galvão.

Não vamos mais falar da escuridão (do espiritual / do Fantasma da Ópera). Esqueça esses medos!

Eu estou aqui, nada pode te ferir. Minhas palavras irão te aquecer e te acalmar (Mas Christine tem ânsia por palavras que despertem, mas o que ele oferece são palavras para acalmar ela.)

Deixe-me ser sua liberdade. Deixa a luz do dia secar suas lágrimas.

Eu estou aqui, com você, ao seu lado. Pra te guardar e te guiar. (Ele quer proteger ela no sentido de deixa la estaganada, isso não é liberdade, é prisão)

 Deixe-me ser seu abrigo. Deixe-me ser sua luz! (luz falsa)

Você está segura, ninguém te achará, seus medos estão longe.

 Então, diga que compartilhará comigo. Um amor, uma vida.

Deixe-me conduzir você dessa sua solidão (Ela tinha momentos de vida interior, e ele quer tirar isso dela, a solidão não é necessariamente má, a solidão é estar acompanho de si mesmo)

Diga que precisa de mim com você aqui, do seu lado.

Qualquer lugar que você for, deixe-me ir também.

Christine, Isso é tudo o que te peço!”

Esse é um dos duetos mais famosos do filme, protagonizado entre Raoul e Christine, quando estão no terraço do teatro e ele começa a cantar para ela “All I Ask Of You”.

Essa é a música do carcereiro que canta para sua prisioneira!!!

Quando ele diz “Isso é tudo o que te peço”, na verdade ele está pedindo TUDO para ela. Ele esta dizendo para ela fugir de tudo que a assusta (espiritual) e ir com ele para um lugar luminoso e seguro, que ela renuncie a sua sombra inconsciente, a beleza que vem dessa sombra, a sua espiritualidade.


THE MUSIC OF THE NIGTH - A MÚSICA DA NOITE.


 “...A noite aguça e acentua as sensações.

A escuridão agita e desperta a imaginação.

Silenciosamente os sentidos abandonam suas defesas...”

 “...Afaste os pensamentos da vida que você conhecia ate agora.

Feche seus olhos e deixe sua alma começar a se elevar.

E você viverá como nunca viveu antes!...”

“...Deixe a sua mente iniciar uma viagem através de um mundo novo e estranho!

Esqueça tudo sobre a vida que conhecia ate agora!

Deixe que a sua alma a leve onde deseja estar

Só assim você poderá pertencer...A mim!..”

Essa já seria a canção que Erik canta para Christine. Os trechos acima mostram como o Fantasma da Ópera amava Christine, respeitando sua real essência, pois apenas quando ela aprofundasse seus conhecimentos, ouvisse seu coração e vivesse na expressão do seu maior propósito de alma é que ela poderia ser “dele”.

Ele não aceitava nada menos que isso. Já Raoul não, em momento algum da música “All I Ask of You” ele fala da vocação de Christine, sobre seu desejo de cantar, ele apenas queira guarda-la e protegê-la, somente para ele.


Qual amor parece mais sublime?

THE POINT OF NO RETURN - PONTO SEM RETORNO.



Fantasma:

“...Você veio aqui. Atrás do seu mais profundo desejo. Atrás daquele desejo que até agora esteve silencioso..”

 “..Na sua mente você já sucumbiu a mim. Derrubou todas as defesas. Completamente sucumbida a mim. Agora você está aqui comigo. Sem hesitações. Você decidiu ... Decidiu..”

Christine:

“...Você me trouxe. Para aquele momento quando as palavras secam.

Para aquele momento quando a fala desaparece.

No silêncio...Silêncio...”

 “..Eu vim aqui. Mal sabendo o porquê. Na minha mente eu já tinha

imaginado nossos corpos se juntando. Indefesos e silenciosos.

Agora eu estou aqui com você. Sem hesitações. Eu decidi ... Decidi...”

 “..Além de todos os pensamentos de certo ou errado

Uma última pergunta: Quanto tempo nós dois devemos esperar antes de nos tornamos um só?”

Quando o sangue começará a correr? O botão (de flor) adormecido

começará a florescer? Quando as chamas vão nos consumir finalmente?

Ambos:

“..Além do ponto sem retorno. A última porta de entrada

A ponte foi atravessada. Então fique e veja-a queimar.

Nós passamos pelo ponto sem retorno...”

...e já dizia um antigo provérbio budista: “Vê que a vida é uma grande ponte. Não constrói nela tua casa. Atravessa-a somente”.

Essa música é o momento em que os dois estão em profunda união e ela entende que apenas se fundindo à sua essência é que ela será livre. Mas em um lapso de segundo ela tem medo e foge novamente de Erik, tirando sua máscara e revelando para todos sua face distorcida.

Raoul venceu essa batalha. 

Mas quem não tremeria diante da fúria de sua verdade mais íntima?

Desejando emergir à superfície de forma tão avassaladora quando a erupção de um vulcão?


OUTROS PERSONAGENS:

Madame Giry:


Esta personagem é a treinadora do balé, a mensageira silenciosa entre os 2 mundos, que treina as personas para a dança da vida, pois o teatro e o palco representam isso.

Ela treinava todas as dançarinas, promovendo esse possível encontro de suas melhores versões com suas almas. Mas foi Christine, com sua habilidade e talento que se tornou digna discípula do senhor da escuridão, foi ela quem começou a escutar sua própria alma. A Madame Giry atua como essa ponte. 

Mag, filha de Madame Giry:


Maguire Giry já não foi capaz de desenvolver essa habilidade, ela representa a mente material e lógica, que faz com que Christine duvide de tudo que é misterioso que ela tenha vivenciado, puxa ela para um campo mais racional, e diz “vc não é assim”, “esta falando por enigmas, vem para um lugar mais seguro”. 
É ela quem vai atrás de Erik no final do filme, no subterrâneo, como se liderasse os demais em busca desse “monstro”.

Gustavo Daae - Pai de Christine:


Em vida foi um grande músico violinista e embora o evento de sua morte fizesse Christine olhar para o passado, pois ela se agarrava ainda as memórias do pai, ele sempre dizia que ela encontraria a “voz do anjo da música”, que a protegeria.

Seu pai já atuava como um mestre, que a preparava para o encontro maior com sua alma, e assim, não a prende no passado, mas a empurra para o futuro, diferente das lembranças de Raoul que a prendem no passado.

Tanto que em um determinado momento do filme quando ela está muito desesperada, sentido seus sonhos morrerem, arrastada pelo brilho do palco, ela vai até o cemitério, no
túmulo de seu pai para relembrar.

Nessa cena ela aparece no meio de duas estátuas representadas de monges com capuz, segurando uma cruz  no peito.


Geralmente esse simbolismo representa uma realidade central originada pelo espelhamento de 2 realidades. Assim eram as antigas entradas de templos budistas:


Mas percebe se que a porta central é sempre maior do que as laterais, ao contrário do que se mostra no filme, Christine embora esteja no centro, não consegue ainda identificar se a realidade é positiva ou negativa.

Tudo estava cinza na cena, menos as flores vermelhas que ela segura, como “símbolo da vida” e “energia”. Naquele momento ela está resgatando sua força interna, como se o seu ser revitalizasse. 


Assim ela ouve o Anjo da Música novamente, ali começa a luta entre o passado (Raul) e o futuro (Erik), essa luta representa as forças da mudança x as forças da inércia.


Uma questão importante a ser comentada, que se for analisada com a mente racional, mais uma vez não terá sentido nenhum, são os comportamentos enraivecidos do Erik toda vez que a Christine o rejeita em favor de Raoul.

Ele vira um monstro, amaldiçoando, praguejando e rancoroso. Mas essa é a visão que Christine tem do que seria "Deus", pois Erik representa essa parte mais divina de sua essência.

Quando muitos de nós escutamos pessoas religiosas dizerem frases do tipo "Cuidado que Deus castiga", essa frase representa perfeitamente esses comportamentos de Erik e a visão distorcida de Christine sobre ele.


Ela sabia que não estava seguindo sua essência toda vez que seguia Raoul. Sentia -se culpada e com medo achando que Deus a puniria por isso, porque no fundo, quando já temos momentos de vida interior, sabemos quando estamos agindo inspirados por nossa centelha divina ou pelas comodidades do mundo.

Na última cena do filme, onde as imagens estão sem cor, sem luz, sem vida, Raul encontra no túmulo de Christine uma rosa vermelha, que simbolizava o Fantasma da Ópera.


Fica claro que não existe esse Deus vingativo.

Devemos arcar com as consequências de nossas decisões, mas nossa essência...

NUNCA DESISTE DE NÓS!!!





CRÉDITOS:

Esse estudo foi inspirado no vídeo do YouTube “O FANTASMA DA ÓPERA - O profundo significado da obra”, da Professora Lúcia Helena Galvão, da Nova Acrópole. 

Link:https://www.youtube.com/watch?v=I1j3m_D0V1I

Não foi transcrito “ipsis litteris”, pois tive outras interpretações sobre trechos do filme que não foram mencionadas por ela, mas sugiro que comparem se tiverem interesse, pois assistir uma aula da Prof. Lúcia Helena enobrece a alma!


 



Nenhum comentário:

Postar um comentário